
Querida Maurren:
Por que me fez chorar tanto assim? Confesso que há tempos não chorava por alguma conquista brasileira, por vários motivos, por ver o proveito que alguns espertalhões tiram quando isso acontece, mesmo não tendo movido uma palha pra ajudar, entre outros que a gente bem sabe.
E ontem, sem esperar, eu acompanhando a turma do futebol, que vai ter que engolir de novo os Argentinos campeões olímpicos, depois do fiasco do Dunga, eis que a TV corta pra você, ali compenetrada, lutando em busca da sua conquista. Parei. Fitei os seus olhos e vi toda a sua raça e a sua vontade. O grito de guerra antes do salto, nos parecia a senha dourada para a emoção iminente. E levando no coração e no corpo tudo o que você viveu e passou, lá foi você empurrada certamente por todos nós, corações suspensos, torcendo e vibrando.
Salto lindo, salto de ouro. Um erro da russa, um centímetro a menos e a coroação de todo seu esforço. O aplauso, a vibração dos cronistas e 0 ouro inédito do esporte individual feminino numa prova que é a alma das Olimpíadas, o atletismo. Suas lágrimas, sua vibração nos contagiou a todos. Todos deixaram suas atividades de lado, seus trabalhos e inquietações por um instante para te aplaudir, te reverenciar. Lembramos todos da sua luta, do seu esforço, da semente que plantou e das tempestades que enfrentou. Os resultados adversos, os dois anos fora do esporte em virtude de um doping por causa de uma pomada e a reconstrução da sua vida e da sua história que você começou desde então.
E eis o momento mágico. Você no alto do pódio. Alto dos píncaros da sua glória, da sua conquista máxima que deixou todo um país ainda mais apaixonado por você. Suas lágrimas quando o Hino tocou foram as nossas lágrimas. Lágrimas da alma lavada de um povo que, em meio a tanta coisa ruim, tem no esporte ainda uma das suas fontes de alegria e de esperança.
E vendo você, querida Maurren, ontem chorando no pódio olímpico, eu também chorei. Um choro gostoso de puro civismo que há muito tempo eu não experimentava. Um choro de alegria, de reconhecimento e de reverência por tudo que você passou, fez e viveu na vida. E, como diria o meu mestre Fiori Giglioti saudoso, que sensação gostosa, torcida brasileira. Que orgulho de ser brasileiro e de termos você como a nossa guerreira e a dona da nossa alegria na última sexta-feira Olímpica. Que Deus te ilumine e te conserve sempre. E obrigado pela alegria indescritível que você me deu. Você ontem derreteu minha manteiga endurecida pelo tempo e pela vida, e me fez chorar como há tempos eu não fazia. Lavei a alma.
Obrigado.